Morbus Sacer: Doença Sagrada Epilepsia ★



I

Chamaram-me sagrado,

mas me temiam.

Diziam que os deuses tocavam meu corpo,

mas, ao invés de reverência,

deram-me correntes,

orações forçadas,

fogueiras acesas.

II

Hipócrates disse:

“Não é um castigo,

não é um demônio,

nem voz do divino.”

Mas quem ouve a razão

quando o medo

é mais forte que a verdade?

III

No tempo dos reis

e da cruz severa,

trancaram-me em asilos sem nome.

Na praça, desviavam o olhar,

como se minha queda

fosse contagiosa.

IV

Hoje me chamam pelo nome certo:

epilepsia, descarga, sinapse falha.

Mas ainda há ecos do velho estigma,

a sombra do Morbus Sacer

nunca se apaga.

V

Antes, amarravam meus pulsos.

Agora, é a química que me prende:

pílulas que acalmam as tempestades,

mas também apagam

pedaços de mim.

VI

Sinto o aviso antes da queda,

um déjà vu de mil existências,

o corpo que dança sem que eu mande,

o silêncio que grita ao redor.

E depois, o cansaço pesa,

os olhares hesitam,

as perguntas somem.

Sou alguém que vive entre descargas,

navegando um mar

que nunca se aquieta.

VII

Chamaram-me sagrado,

mas me temiam.

Hoje sou ciência,

sou luta,

sou voz.

Não carrego maldição,

carrego história.




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