Vinte e três primaveras em suspensão ★




I


Vinte e três primaveras nos ombros a bailar,
um sonho de independência, castelo a se alçar.
Nas mãos, a ânsia de voo, a vontade de ir,
mas nos bolsos, o eco
de um vazio a persistir.

II

O aluguel, fera faminta, ruge ao portão,
a conta de luz, navalha fria na razão.
O prato na mesa, miragem distante a brilhar,
enquanto a busca por um sustento
teima em falhar.

III

A faculdade, farol de um futuro a acenar,
torna-se um peso
se a bolsa insiste em negar.
Os livros empoeiram, a mente a divagar,
entre o saber sedento
e a urgência de trabalhar.

IV

Os amigos avançam, passos firmes no chão,
conquistas pequenas, sua própria direção.
E a comparação, silenciosa e cruel,
semeia a dúvida,
um amargo fel.

V

Mas no peito reside a chama,
teimosa a queimar,
a crença na força
que nasce em lutar.

Ainda que a jornada se mostre tão cruel,
a semente da esperança
não se rende ao lençol.

E cada “não” na porta,
cada esforço em vão,
fortalece a fibra,
acende a indignação.

VI

Pois a independência
não é só ter o seu lar,
é a alma liberta,
capaz de recomeçar.



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