Fragmentos de Nós? ★
I
Tínhamos planos — um encontro imaginado,
onde os sonhos navegavam no oceano do tempo.
Eu, teu porto, teu farol nas madrugadas de solidão,
e tu, o último verso escrito por mãos
que tremiam de amor.
Mas veio a maré, sutil e silenciosa,
carregando consigo a promessa de finais felizes,
como aqueles contos que embalam a infância,
e, aos poucos, afogou o que pensávamos ser verdade.
II
Tínhamos o futuro entre os dedos,
tecendo destinos ambiciosos, sedentos.
Tínhamos um ao outro,
mesmo envoltos na névoa do anonimato.
Eu quis ser a estrela que guia tua noite,
o amante sem tempo, sem pressa, sem horas.
Mas a maré levou o que não era nosso —
os sorrisos que não vivemos,
as palavras que não dissemos,
e o “felizes para sempre”
que jamais nos pertenceu.
III
Agora resta a desilusão
das promessas não cumpridas,
dos sonhos não consumados.
Fomos o suficiente?
Fomos reais?
Escolhi-te, mesmo quando o destino gritava “não”.
Amei-te, mesmo quando o amor era um espinho cravado.
Desejei-te, mesmo quando teus olhos me diziam o contrário.
IV
Diz-me: o que somos, senão fragmentos?
Diz-me: o que sentes, além do silêncio?
Teu beijo — um néctar que embriaga o tempo;
teu cheiro — uma lembrança que me veste de paz;
teu abraço — o único lugar onde o caos se desfaz.
Deixa de lado a culpa e a consciência,
deixa o ontem desvanecer como bruma ao sol.
O que importa é o agora,
o que fazemos com o que restou,
o que ainda podemos ser,
aqui, neste instante.


