Entre migalhas e silêncios ★


I

Se apenas seis letras curassem,
se fossem remédio para a fratura da confiança,
não existiriam as fissuras da insegurança,
nem o veneno da dúvida, do medo.
Se essas seis letras apagassem tudo,
rasurassem o passado
como quem apaga o eco de promessas que nunca floresceram,
juras que murcharam no tempo.
Migalhas de um amor forjado,
ofertadas como se fossem o bastante.
E eu, cega, aceitei, me perguntando:
te amaria hoje como amei ontem?
Não me torture com sua falsa preocupação —
nunca houve arrependimento em seus olhos.

II

Minha mãe sempre sussurrava:
“só se valoriza quem está ao lado quando já se foi.”
“Perdão” — palavra vazia, insana como a morte que ronda,
usada para encobrir as rachaduras que nunca soubemos colar.
Perdão, uma moeda sem valor,
e o que sobrou de nós se esvaiu
na tentativa falha de usá-lo.
Desculpas não alcançam mentes que desmoronam,
e você sabia — sabia que o silêncio
não apaga os fantasmas.

III

Perdão não compra os dias de terapia,
fomos fugitivos de nossa própria ilusão,
caminhamos em círculos até o fim inevitável,
onde só restou o gosto amargo do término.
Por que fingir sentir o que não ardeu em seu peito?
Por que voltar a mim,
se só restam cinzas?
As migalhas de afeto que me oferecia eram o bastante para você,
mas para mim, eram a fome de tudo o que faltava.

IV

A verdade tem tantas faces,
mas apenas uma foi enterrada.
Certo ou errado? Não faz diferença —
eu não me lembro dos momentos que não existiram,
do amor que só eu sentia.



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